Clínica Otorrino Penido Burnier

Meningioma: Ângulo pontocerebelar e petroclival

O meningioma é um tumor originário dos envoltórios cerebrais chamados de meninges, mais especificamente da camada intermediária, a aracnóide. Apresentam uma diversidade de subtipos e são classificados pela Organização Mundial de Saúde em três graus:

  • Grau I – mais frequente (80%), de crescimento lento e comportamento benigno;
  • Grau II – corresponde a 15-20% dos meningiomas e  apresenta a maior taxa de replicação tumoral, podendo levar a recidivas frequentes;
  • Grau III – raro (1-4%), apresenta invasão do tecido cerebral e/ou metástase para outros órgãos.

MENINGIOMA 1

 

Dentre os tumores intracranianos primários é o mais frequente na idade adulta. Sua incidência na população aumenta com a idade e é ligeiramente mais frequente nas mulheres e nos Afro-americanos. Podem apresentar-se isoladamente ou de forma múltipla, como na Neurofibromatose tipo II, doença de origem genética que predispõe a formação de meningiomas e de outros tumores intracranianos.

Os meningiomas podem surgir em diversas localizações no espaço intracraniano, causando a diferentes sintoma. De particular interesse para a Neurotologia estão os meningiomas localizados na face posterior ou petrosa do osso temporal (como mostra a figura abaixo), onde se situam parte das estruturas responsáveis pela audição e pelo equilíbrio. Estes correspondem a menos de 10% de todos meningiomas e podem ser divididos em meningiomas do ângulo pontocerebelar e petroclival.

MENINGIOMA 2

 

Quadro clínico e diagnóstico

A maioria dos meningiomas da porção petrosa do osso temporal passam longos períodos silenciosos e quando são diagnosticados, geralmente já apresentam grande volume tumoral. Nos meningiomas do ângulo pontocerebelar são  mais frequentes distúrbios dos nervos cranianos (perda auditiva, dormência ou dor facial e movimentos involuntários ou fraqueza dos músculos da face). Já nos petroclivais, os sintomas mais comuns são a dor de cabeça (cefaléia) e a dificuldade para andar. Entretanto, ambos podem apresentar todos os sintomas descritos acima.

A partir de uma suspeita clínica a realização de exame de imagem é imperativa. A ressonância magnética é exame de escolha  para o diagnóstico e programação do tratamento, por apresentar grande acurácia na definição da lesão e estabelecer as relações entre o tumor e as estruturas neurais e os vasos sanguíneos. A tomografia computadorizada pode indicar o diagnóstico, e muitas vezes é o primeiro exame solicitado por ser de rápida realização e muito utilizada em pronto-socorro. Estudo mais detalhado da circulação sanguínea cerebral (angiografia cerebral) auxiliam na definição e programação do tratamento. Exames audiológicos e otoneurológicos são importantes para avaliar a função auditiva e vestibular (equilíbrio) do paciente, com intuito de diagnosticar déficits neurológicos pré-operatórios, estabelecer vias de acesso cirúrgico e predizer possíveis sintomas pós-cirúrgico.

Meningioma Petroclival Meningioma do ângulo Pontocerebelar

Meningioma Petroclival/Meningioma do ângulo Pontocerebelar

 

Tratamento

Existem três modalidades de tratamento para esses tumores: observação clínica, cirurgia e radioterapia. A simples observação clínica é possível mediante a confirmação de que o tumor apresenta taxa de crescimento lenta (geralmente < 3mm/ano) e pode ser aplicada em pacientes com lesões pequenas e assintomáticas, em pacientes idosos ou com condição clínica ruim.

A cirurgia é o único tratamento capaz de eliminar o tumor e permitir um diagnóstico definitivo, através da análise de fragmentos do tumor. Indicada para lesões sintomáticas, lesões que comprimam estruturas neurais ou lesões que apresentem crescimento progressivo. Os acessos cirúrgicos mais utilizados são o retrossigmoideo e o pré-sigmoideo, sendo o último mais utilizado nos casos de meningiomas petroclivais. Como complicação os pacientes podem apresentar perda auditiva, perda da sensibilidade na face, paralisia facial, fístula liquórica (saída pela incisão cirúrgica do líquido que banha o cérebro) e meningite. Quanto maior o tumor, maior a chance de complicações. Tais cirurgias sempre foram e são um grande desafio técnico, mas atualmente, com o desenvolvimento de materiais e técnicas cirúrgicas modernas, são possíveis ressecções totais sem deixar sequelas neurológicas. Modernos microscópios, sistema de navegação (ajuda na localização da lesão durante a cirurgia através de sistema parecido com o GPS)  e diversas modalidades de monitorização eletrofisiológica intra-operatória (avalia o funcionamento de áreas do cérebro durante a cirurgia) fazem parte do arsenal cirúrgico.

MENINGIOMA 4

Outra modalidade terapêutica é a radioterapia, que pode ser aplicada através de diversas formas, de acordo com o tamanho e formato da lesão. Esse tratamento tem como objetivo o controle do crescimento tumoral, não sendo esperado o desaparecimento da lesão. Pode ser utilizado como tratamento inicial em lesões pequenas (< 3cm), em pacientes idosos ou com condição clínica ruim, e também complementar à cirurgia, em caso de remanescente tumoral em crescimento ou meningiomas de alto grau. Estudos tem demonstrado altas taxas de controle tumoral associadas a poucas complicações.

O conhecimento da doença e de todas as possibilidades de tratamento, assim como os pontos positivos e negativos de cada uma delas, são o cerne do tratamento adequado, individualizado e consentido.